O que fazer quando a pirraça passa dos limites?

Como você se sente e o que você faz quando seu filho começa a fazer pirraça? Mas, não estou falando aquela birrinha que para com facilidade. Estou me referindo a uma pirraça “daquelas” no meio da rua, no restaurante, do shopping, do supermercado, na hora de ir para a escola, na quando não quer tomar banho ou uma baita crise de ‘fúria’ infantil que leva horas? Sim! Horas!

As piores pirraças da Isis acontecem em casa (ainda bem), mas duram muitos e muitos minutos. A última aconteceu na terça-feira (15/10/2019) depois que ela voltou da casa do pai. A criança berrava, esperneava, chorava, não me ouvia, nada fazia a menininha parar… Ela foi dormir fazendo pirraça, acordou de mal humor, brava e ainda fez malcriação na escola. Até agora não descobri o motivo. Tudo começou quando eu disse “vamos tomar banho, jantar e depois dormir”. Pronto! O mundo desabou em berros.

Já na rua, ela fez uma pirraça no shopping porque não queria sair do parquinho. Precisei ter muita paciência para não sair arrastando a criança (risos). O que fiz foi pegar no colo – mesmo com ela se debatendo – e tirar do local na marra! Depois fui mostrando tudo que eu via pela frente até ela se distrair, ao mesmo tempo eu explicava que o tempo do parquinho havia terminado, que era a vez de outra criança e que voltaríamos em outro momento. Por fim, ela entendeu. A questão, na minha opinião, é manter-se firme na decisão e não ficar barganhando. Aqui em casa é “pode”, “não pode” e nem sempre fico justificando a minha decisão, embora eu goste de explicar os motivos para que ela entenda e já trabalhe a compreensão.

Você fica com vergonha pelo ato inapropriado, mas típico do desenvolvimento infantil? Se sente frustrada, impotente? Fica com raiva, depois se sente triste por ter brigado com seu filho(a)? Eu me sinto frustrada e triste muitas vezes. Frustrada porque, como adulta, não vejo necessidade desse comportamento. Triste porque brigo (às vezes berro) e depois me sinto mal. Mas sei que é necessário impor limites.

Transformar o modo como lidamos com as pirraças depende muito de nós mesmas. Como mãe solo (neste momento atual) sinto um peso muito maior de educar sozinha em casa ou nos vários ambientes nos quais vou com ela. Meu primeiro passo para o entendimento foi compreender que esse rompante emocional faz parte de um processo muito importante do desenvolvimento infantil. A criança expressa seus sentimentos para os outros sem receio (como nós): raiva, medo, tristeza, alegria, entusiasmo, ansiedade ou qualquer outra emoção.

Sei que por trás destes comportamentos desafiadores para nós há uma necessidade da criança que não está sendo colocada de modo claro, por isso, sempre peço para que a Isis se acalme fechando os olhos e respirando profundamente algumas vezes até que ela tenha o mínimo de condição de me dizer o que está sentindo.

Faço perguntas como: Você está com raiva? De quê? Tem algo que eu possa fazer para ajudar? E por aí vou tentando estabelecer um diálogo harmonioso. Quando não dá… Eu a deixo sozinha com os brinquedos para que ela consiga refletir dentro das possibilidades dos 4 anos de idade e depois volto a tentar conversar. De outras vezes, brigo e mando parar. Ponto!

Gosto muito dos livros, artigos e explicações de Rosa Jové, psicóloga especializada em clínica infantil e juvenil e psicopediatra. Então, vou compartilhar aqui dicas com base no que ela escreve, dicas baseadas em minhas leituras sobre comportamento infantil e situações que são da minha própria experiência. Espero te ajudar a lidar com as pirraças e a tomar atitudes mais conscientes e assertivas.

1. Saber diferenciar a idade: por volta de 2 e 3 anos as crianças estão em um momento de individuação e ela começa a perceber que é independente da sua mãe. Negar o que falamos para elas fazer é a forma mais comum de mostrar para a gente que ela já está compreendendo que é um outro ser, diferente de nós. Nem tudo que ela expressa com “não” tem a ver com “estar te desafiando ou te testando”, a maioria das vezes tem relação em estar se autoconhecendo e expressando suas próprias vontades e limites. Permitir que a criança faça suas próprias escolhas é importante para a autoestima e autoconfiança.

2. Evite gatilhos de pirraça: Você conhece seu filho melhor do que ninguém. Então, você sabe bem quais fatores desencadeiam a pirraça. Assim sendo, evite esses conflitos no dia a dia. Se vai leva-la ao supermercado, shopping, casa de amigos, parquinho, etc, converse antes com ela dizendo onde vão e como você gostaria que ela se comportasse nesses locais. Com a Isis costumo dizer que ela precisa respeitar o momento de ir embora e que precisa pedir permissão para pegar coisas que não são dela. Se a situação for o parquinho, por exemplo, digo que quando chegarmos em casa ela precisa ir direto para o banheiro tomar banho.

3. Não use adjetivos negativos: Que menina(o) feia(o)! Ah, que boba(o)! Você está chata. Criança bonita come tudo. Não seja mal educado, beije a vovó… Não seja egoísta, empreste seu brinquedo.

Meu Deus! Não faça isso! A criança te ama e confia plenamente em você! Ela vai memorizar essas afirmações e isso pode afetar a autoestima e autoconfiança dela. Pense: você emprestaria seu celular para seu amigo só para não ser egoísta? E aquela blusa maravilhosa que você ama? Emprestaria para sua amiga para não ser “uma menina feia”? E você abraçaria alguém contra a sua vontade? Se a criança não quer dar um beijo nos avós, apenas diga a ela que ela pode fazer isso num momento em que sentir vontade, mas que por hora cumprimentar é suficiente.

4. Auxiliar a criança nesta fase não quer dizer que você não se impõe. Use mais seu modo racional do que o emocional e coloque-se no lugar de seu filho. Retire-o de perto de outras pessoas e converse com ele. Há momento que não podemos cede. Não é não! Não pense que você está “passando vergonha’. Você está educando! Quando a criança se acalmar explique o que a levou a negar o pedido dela, abraça, acolha, diga que ama e oriente a não ter mais aquele tipo de comportamento. Costumo dizer a Isis o seguinte: “Minha filha, que tal da próxima vez você me dizer o que quer em vez de sair pulando, chorando e berrando?”. Dê um abraço e afirme que você está ali para ajudar a resolver a situação.

5. Acolha. Costumo dizer a Isis que eu já senti o que ela sente. “Quando eu tinha a sua idade, isso aconteceu comigo. Eu entendo você. Mas que tal se você me falar o que está acontecendo em vez de chorar desse jeito?”.

6. Nem toda a pirraça é “sem motivo”. Perceba se há fome, sono, frio, cansaço… Evite atividades excessivas. Crianças exaustas tendem a fazer mais pirraça e a ter sono de qualidade ruim. A criança tem um limite (assim como nós) não perca o timing.

7. Quando ela estragar ou quebrar algo durante a crise de birra, mesmo que tenha conserto, faça a criança jogar no lixo. Mostre a ela que as coisas são importantes e que se ela estragar vai ficar sem. Fiz isso com a Isis e nunca mais ela quebrou nada.

8. Tudo passa. Essa frase é bem típica do zen budismo. TUDO PASSA! A fase da pirraça vai passar, a infância vai passar. Vai chegar um momento em que ela aprenderá a se expressar com mais clareza. A dica, aprecie cada momento do seu filho(a).

Quem escreve
*Fernanda Con’Andra – jornalista, gestora de Marketing Digital e estudiosa de assuntos ligados ao comportamento infantil e materno na primeira infância. Escrevo minhas experiências e ligo os temas a entrevistas que realizo com profissionais especializados nos assuntos em pauta. Sou mãe da Isis, de 4 anos.

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