Festa Junina? Conheça livros e personagens que ensinam sobre o universo caipira

Foto: Andrea Piacquadio / Pexels

Festa Junina. Festa Julina. Com as celebrações na rua canceladas para conter a pandemia do coronavírus, uma nova forma de comemoração em casa ganha força: a leitura para as crianças (e para toda a família) de quadrinhos, livros, contos, crônicas, poemas e personagens que ensinam sobre a cultura caipira. Diversão e conhecimento garantidos. Veja nossa lista.

“O Velho, o Menino e o Burro e Outras Histórias Caipiras” (Ruth Rocha)

Quem não gosta de uma boa história? Não é à toa que o costume de sentar juntinho e se deixar levar pela voz de um contador faz parte da cultura de todos os povos. No livrinho “O Velho, o Menino e o Burro e Outras Histórias Caipiras”, Ruth Rocha se baseia em narrativas orais, oferecendo ao leitor três histórias muito, muito divertidas. Na primeira, que dá título ao conjunto, um velho, um menino e um burro vão pela estrada, cada hora de um jeito (velho a pé, menino em cima do burro; menino a pé, velho em cima do burro; burro, velho e menino caminhando…). A segunda, “Uns perus pro seu juiz”, trata da briga de Seu Porfírio, rabugento, e seu Candinho, muito manso, para saber quem é o dono do rio que passa nas terras deles. Sobre a terceira e última, “Dona Chiquinha, a mexeriqueira de Xique-Xique”, só posso adiantar que corria na cidade o boato de que um homem sério e caladão tinha botado um ovo. Três contos, melhor seria dizer três causos, para quem aprecia (ou “apreceia”) uma boa conversa com gosto de café doce e cheiro de capim molhado.

Apresenta elementos que compõem as festas de junho, como o casamento e a quadrilha, o correio elegante, as brincadeiras e os quitutes típicos

O mundo caipira dos anos 1970 para trás quase não existe mais, porém, sua cultura ainda tem muito para ensinar. Uma delas é o mundo das rimas de cordel. No livro escrito em versos de cordel “Rimas Juninas”, o educador e escritor César Obeid apresenta aos pequenos, diversos elementos que compõem as festas de junho, como o casamento e a quadrilha, o correio elegante, as brincadeiras e os quitutes típicos, e percorre os seus significados, curiosidades, entre outros. O autor aborda como essa grande festa começou, propõe a descoberta desse universo das tradições caipiras por meio de variadas abordagens linguísticas, como poemas, receitas culinárias e textos de teatro, que tornam a leitura acessível e prazerosa.

Além de seu conteúdo informativo, o livro traz em seu projeto visual cenários elaborados com belas cerâmicas figurativas de Ana Souza. Por meio delas, a artista reproduz a energia e o colorido dessa festividade com um toque de brasilidade digno das tradicionais quermesses. A obra é indicada para leitores a partir dos 8 anos.

A música caipira representa o mundo rural e o êxodo rural do campo para as cidades

Já o livro “Choro e música caipira”, traz para o universo das crianças, dois gêneros musicais que, atualmente, são menos conhecidos, mas que carregam em si costumes e tradições genuinamente brasileiros. O choro representa o mundo urbano e o momento da modernização das cidades, e a música caipira representa o mundo rural e o êxodo rural do campo para as cidades.

Nessa obra, os leitores conhecerão a história desses dois estilos musicais, seus principais representantes, suas tradições e trajetórias, que culminaram com a consolidação desses dois gêneros. E, com a leitura, os pequenos conhecerão de perto os elementos que compõem o cenário do campo e os valores do mundo caipira, como as brincadeiras de roda, a Ave Maria das seis horas, as histórias contadas pelos mais velhos e outros. A obra, dos autores Carla Gullo, Rita Gullo e Camilo Vannuch faz parte da coleção Ritmos do Brasil e é indicada para leitores a partir dos 8 anos.

Sítio do Picapau Amarelo

As histórias do livro Sítio do Picapau Amarelo, escrito por Monteiro Lobato, são ambientadas no sítio de Dona Benta, uma senhora que vive afastada da correria e do barulho da cidade grande. Ela conta com a amizade da Tia Nastácia, que cozinha quitutes caipiras para a turma formada por Narizinho, Rabicó, Visconde de Sabugosa – boneco feito a partir de um sabugo de milho, a boneca de pano que virou gente Emília, Pedrinho e Tio Barnabé, responsável pela manutenção do Sítio. O livro mostra riachos, fábulas, alimentação, brincadeiras e muitas aventuras que acontecem na mata localizada pertinho do Sítio, o “Capoeirão dos Tucanos”, onde moram a Cuca, o Saci, a Iara, o Curupira.

Quando criança, quem não gostava de ouvir histórias de fantasmas? Nem só de princesas vive o universo do “era uma vez…”

Um dos romances premiados pela edição 2008/2009 do Proac (Programa de Ação Cultural), da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, “Assombrações Caipiras” parte de entrevistas com pessoas da terceira idade para resgatar personagens e episódios misteriosos do passado “caipira”. Entre eles, tesouros enterrados, almas penadas, visões sobrenaturais, o lobisomem, o chupa-cabra e o controverso saci-pererê. Quando criança, quem não gostava de ouvir histórias de fantasmas? Numa época em que a modernidade ainda não havia exorcizado os velhos mitos e lendas, as assombrações reinavam na noite – especialmente no interior e nas áreas rurais. O resultado é um livro de ficção, sem pretensões históricas, mas que busca, com bom humor, não apenas resgatar histórias do passado, mas valorizar quem as conhece.

Personagens caipiras

Chico Bento

Chico Bento é um dos personagens da Turma da Mônica. Criado pelo cartunista Maurício de Sousa, em 1961, é retratado como trabalhador, aventureiro, carismático, esforçado e divertido. Ama dormir em sombras de árvores, pescar com seus amigos e roubar as goiabas do Nhô Lau, apaixonado pela Rosinha e faz todas as atividades do Sitio. Chico Bento não é muito estudioso… Às vezes, esquece os compromissos, o que deixa Rosinha muito aborrecida. Chico é um típico caipira brasileiro: anda descalço, usa chapéu de palha. Ele mora com os seus pais, Seu Bento e Dona Cotinha, em um sítio nas cercanias da fictícia Vila Abobrinha, no interior de São Paulo. Possui uma avó paterna, Vó Dita, contadora de “causos” e de histórias folclóricas, envolvendo lendas, tais como a da Mula-sem-cabeça, do Saci, do Lobisomem, do Curupira, dentre outras.

Jeca Tatu (Urupês, de Monteiro Lobato)

Editado em 1918, deu fama ao personagem Jeca Tatu, ícone de uma pessoa ingênua que vive num país agrário, pobre, injusto e atrasado. O livro “Urupês” indica um começo para entender historicamente uma época que ainda existem em muitos pontos do Brasil atual. A perspectiva política e social em que Monteiro Lobato representa o país nas primeiras décadas do século 1920.

No livro, Lobato condena as queimadas praticadas por caboclos nativos no Vale do Paraíba (São Paulo) e Jeca Tatu é descrito como um caipira incansável, desleixado, que se senta de cócoras e vive com pés descalços, sem escolarização, sem contanto com outras culturas, sem ambição ou mesmo disposição para melhorar de vida. Vive do que a natureza dá, bebe cachaça e respira as crendices populares. Jeca Tatu, como as outras pessoas de sua comunidade, é ignorado pelos governantes, que só aparecem às vésperas das eleições.

No conto, Monteiro Lobato distancia a zona rural da romantização. ‘O Brasil é a terra onde o certo dá errado, e o errado dá certo’, diz Monteiro Lobato ao escritor Lima Barreto numa carta de 1918, ano da edição de ‘Urupês’.  Urupês é citado até hoje como um ‘best-seller’ internacional com mais de 30 mil exemplares vendidos em sucessivas edições até 1925.

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