Arthur, bebê baleado no útero da mãe, morre em hospital

Arthur, quando ainda tentava se recuperar no hospital (Imagem/Reprodução TV Globo)

Arthur, bebê de 39 semanas baleado no útero da mãe há exatamente um mês no Centro de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, morreu após lutar pela vida depois de ser submetido a uma cesariana de urgência. Ele foi mantido internado com outros 15 bebês na UTI neonatal do Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, mas não resistiu e faleceu, às 14h5m de ontem (30 de julho), quando completou um mês de vida. Ele (e sua família) são mais vítimas da violência que destrói o Rio.

Enxoval do bebê estava completo (Foto/Álbum de Família/reprodução)

A morte foi anunciada no fim da tarde de domingo pela Secretaria estadual de Saúde. Segundo a nota, o bebê não resistiu “após apresentar piora de seu quadro clínico em decorrência de uma hemorragia digestiva intensa, por volta das 5h30m da manhã. A família foi informada e esteve na unidade ainda pela manhã. O estado de saúde de Arthur esteve gravíssimo nas últimas horas e todos os procedimentos para reverter o quadro foram adotados, porém não houve resposta clinica”. E os pais ainda precisaram passar por mais uma dor: “reconhecer” o corpo do bebê no Instituto Médico Legal (IML), para onde foi levado por ter sido vítima de arma de fogo.

Claudinéia, mãe de Arthur (Marcos Michael/VEJA)

Em entrevista a Revista Veja, Claudinéia relembrou: “Quando olhei para a perna, já dormente, vi que uma bala tinha afundado na minha pele. Sangrava, sangrava, e aí veio a dor forte na barriga. “Meu filho!”, gritei. Me levaram para o hospital, me deitaram na mesa de parto, e eu ainda me lembro de ter dito: “Salvem meu menino”. Depois apaguei. Se na hora do tiro eu estivesse 1 milímetro para o lado direito, não estaríamos passando por nada disso. Arthur estaria em casa, no quarto que montamos para ele, no berço ainda vazio. Faltavam só três dias para a data prevista para o parto normal. Foi a diferença entre nascer na paz e na guerra.”

Arthur, quando ainda tentava se recuperar no hospital (Imagem/Reprodução TV Globo)

E mesmo com todas as complicações de seu caso, os médicos também lutavam pela recuperação do bebê: segundo eles, o corpo ficou um pouquinho mais forte (pesava mais de três quilos), os drenos nos dois pulmões, atingidos pelo disparo, estavam sob controle. A esperança somadas as muitíssimas orações e envios de apoio para a mãe e para o pai do Arthur eram em prol de sua vida e também para que superassem a previsão médica inicial, que indicava o quadro de paraplegia resultado da lesão medular ocasionada pelo tiro.

Relembre o caso

Claudineia dos Santos Melo, 28 anos, foi baleada a cerca de três metros de duas viaturas da Polícia Militar, na Favela do Lixão. Ela voltava de um supermercado, no Centro de Caxias, onde tinha ido comprar repelente para mosquitos. Quando ouviu o som dos disparos, correu e tentou se proteger em um depósito de bebidas. Foi quando sentiu uma fisgada acima da perna esquerda: era o tiro que chegou ao útero e deu um ponto final na vida de seu filho após 30 dias de nascimento de urgência.


Opinião MDJ

Todos nós sentimos muito por essa enorme dor que essa família está passando. A dor da família de Arthur se espalhou pelo Brasil e pelo exterior. A morte dele diminuiu a esperança de todos que acompanharam sua história como vizinhos, desconhecidos, amigos dos pais, parentes e outros pais. Cada um a seu modo, cada um com mais medo de ir à rua. É impossível imaginar o sofrimento deste bebê e desta mãe – e também do pai. O local mais seguro para a criança, o ventre da mãe, não escapou da atrocidade que essa cidade se tornou. Que haja muito luz e conforto em todos os corações envolvidos e que o pequeno Arthur encontre a paz que precisa.

 

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