A história do garoto que vendia amendoim no semáforo e se tornou doutor e cientista

A mãe estimulou os estudos e o amor pelos livros.

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Sua mãe também foi fundamental para que Souza não se perdesse no caminho. Trabalhando como empregada doméstica, ela aproveitava o pouco tempo livre em casa para estudar para um concurso de merendeira, no qual passou em 1972. “Minha mãe sabia ler e escrever e valorizava isso”, diz Souza.

Ele destaca a dedicação à educação e a clareza histórica dela de que estudar era a única alternativa. “Ela dizia: você precisa estudar, não tem forças para ser um pedreiro, um servente, não tem resistência”, recorda. “Você não tem outra alternativa. Tenho uma imagem dela atravessando as enxurradas em São Vicente, às 6h, sob chuva, com os dois filhos no colo e a correnteza forçando seu andar, para nos levar à creche. Lia muito e lia para nós. Sou um sobrevivente. José Mauro de Vasconcelos era o autor do livro que minha mãe amava e que me faz amar os livrosMeu Pé de Laranja Lima. Ela me salvou, o livro me salvou.”

Sobrevivência

Gilberto Soiuza, pesquisador e professor com mestrado, doutorado e pós-doutorado .

“Eu nasci com um elevado grau de subnutrição, porque minha mãe havia passado fome durante a gravidez. Fui desenganado e com a possibilidade de apresentar deficiências cognitivas. Mais tarde, aos sete anos, quase morri de tuberculose.”

E foi assim: de bebê com alto grau de subnutrição e menino vendedor de amendoim e catador de ferro velho nas ruas, que quase morreu de tuberculose, a pesquisador e professor universitário com mestrado, doutorado e pós-doutorado, este feito na Universidade de Salamanca, na Espanha.

Este é um resumo da trajetória de vida e profissional do geógrafo José Gilberto de Souza, um “sobrevivente”, como ele se define. Souza é professor associado do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial da América Latina e Caribe, do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais, da mesma universidade, em São Paulo.

A vida dura aconteceu em São Vicente, cidade do interior de São Paulo, em 1967, quando a mãe de José Gilberto se mudou com ele e duas filhas, uma do primeiro casamento, para lá. “Na cidade do litoral, ela continuou trabalhando como empregada doméstica para criar sozinha 3 de seus 5 filhos (os menores ficaram com o pai, em Presidente Prudente). Lá, a família desmembrada foi morar no bairro pobre de Cidade Náutica, que tinha um dos maiores índices de criminalidade de São Vicente.

“Na época, entre 1972 e 1973, com oito, nove anos, para sobreviver e ajudar minha mãe, eu fui vender amendoim aos motoristas que paravam no sinal da Ponte Pênsil, entre São Vicente e Praia Grande, e juntava ferro velho nas ruas. Muitos dos meus amigos de infância se perderam pelo caminho, ou deixaram que se perdessem”, recorda o geógrafo que aos dez anos começou a trabalhar numa fábrica de doce de banana, em São Vicente mesmo. “Ficava com as mãos pretas da nódoa da banana e na escola todo mundo olhava para elas, que eram mais escuras que o tom da minha pele.”

Educação, força de vontade e oportunidade

Sua mãe também foi fundamental para que Souza não se perdesse no caminho. Sua trajetória escolar até chegar à universidade começou ainda em São Vicente, sempre em colégios públicos. “Tantas mudanças, além do trabalho e do estudo noturno, em alguma medida poderiam ter comprometido muito minha formação.”, lembra.

Mas não foi o que ocorreu. Em 1987 ingressou na universidade, no curso de graduação em Geografia. Terminou o mestrado em 1994, ambos na Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Unesp em Presidente Prudente. Lá, Souza também foi professor dos cursos de Graduação e de pós-graduação em Geografia. Em 1999, concluiu o doutorado em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo.

Gilberto, em foto no dia de sua colação de grau (Foto: Arquivo Pessoal)

Dez anos depois, em 2008, terminou a livre docência pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, da Unesp, em Jaboticabal, na qual foi professor do Departamento de Economia Rural no período de 1995 a 2009 e do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia. Mais tarde, fez pós-doutorado na Universidad de Salamanca e foi presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB/Nacional) de 2016 a 2018.

Uma de suas melhores experiências como professor “foi no período de 1990 a 1991, dando aulas num presídio, alfabetizando presos”.

“Esse comprometimento com a conscientização e a formação foi muito positivo e até me livrou de um assalto. Uma vez eu levava minha esposa para casa e atravessávamos a linha do trem, num trecho escuro, quando dois rapazes passaram a vir em nossa direção. Perto de nós, um tocou no ombro do outro, segurou-o, colocou o corpo à frente e disse: ‘boa noite, professor’. Não tenho dúvidas de que seríamos assaltados. Sempre disse aos alunos qual era meu papel na penitenciária e que deveriam me abordar na rua, e que talvez eu não me lembrasse deles, mas poderiam dizer: fui seu aluno. Nossa postura faz o mundo e faz nossa vida.”

Fonte: BBC Brasil
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